Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

II Desafio BTTralhos - "A Idade da Pedra" Vermoil - 01/Maio/2010

Para comemorar devidamente o dia do trabalhador, eu e o RV decidimos pôr os pedais a trabalhar a sério e aceitar o II Desafio BTTralhos. Para este desafio veio também connosco o Ricardo Saleiro, que fez a sua estreia com a camisola pedrAmarela.

Já há algum tempo que este evento, organizado pelo grupo BTTralhos, vinha chamando a minha atenção, através do tópico alusivo ao mesmo que se encontrava no Fórum BTT. Tratava-se de um passeio daqueles como a malta gosta (pelo menos alguns de nós), para pessoal de barba rija, com 110 km de extensão, com 3000 m de desnível acumulado de subidas, gratuito, em autonomia, com navegação por GPS e que passaria pela Serra do Sicó, um local muito interessante para a prática do BTT e que ainda não conhecíamos.

Para participar seria apenas necessário fazer uma inscrição no site da organização, onde estava disponível toda a informação relativa ao “empeno” em questão. A organização enviou-nos depois, por e-mail, o track GPS do percurso e uma série de informações relativas quer ao programa, quer ao percurso.

Estranhamente, e contrariamente ao que geralmente me sucede, consegui carregar o track GPS à primeira, sem qualquer problema. Encarei isso como um sinal de que o passeio ia correr bem.

Estavam inscritos pouco mais de 180 participantes, pelo que se previa um “ambiente de trabalho” calmo, sem molhadas ou confusões. Registe-se a participação de duas senhoras e de quatro “hermanos” de Pontevedra.

Às oito da matina lá nos encontrámos no campo da bola de Vermoil, freguesia do concelho de Pombal, onde teria início e terminaria o passeio. Fomos levantar os dorsais, que serviriam para identificar os participantes e onde estavam os números de telefone da organização e dos bombeiros das localidades por onde passaríamos.

PM, RV e o caloiro RS

Após um brevíssimo briefing, às 8h30, foi dada a partida para o que se revelaria uma excelente jornada de BTT.

O pessoal a concentrar-se para a partida

MDiogo dirige algumas palavras às massas trabalhadoras

Os primeiros quilómetros foram bastante planos e rolantes, alternando o alcatrão com pisos de terra. Num destes últimos, nuns regos abertos pelos rodados dos tractores e meio encobertos pela erva molhada (tinha chovido de madrugada), resvala-me a roda da frente, tendo eu aproveitado logo para encetar um contacto mais íntimo com o terreno (vulgo malho). Felizmente não se registaram consequências deste incidente, para além de algumas amolgadelas no orgulho.

As duas senhoras participantes dão as primeiras pedaladas

RV naquele que começa a ser o seu ambiente natural, o alcatrão

Passagem sobre a linha do norte

Rolámos um bocado paralelamente à linha do norte, sobre a qual passámos pouco depois. Mal transpomos a linha, deparamos com a primeira dificuldade do dia. Um single a subir, com uns regos manhosos, onde o pessoal, vai-se lá saber porquê, resolveu todo apear e subir com as bikes à mão. Enquanto vou murmurando entre dentes as imprecações do costume, começo a aperceber-me da ironia da situação. Então um gajo não vai a Portalegre para evitar as molhadas e estava agora ali, num passeio com ambiente familiar, enfiado num engarrafamento tipo IC19. Mas pronto, lá aproveito para tirar umas fotos que o dia era para descontrair.

Primeira subida, primeiro engarrafamento

Não vai um gajo a Portalegre para isto

Estes primeiros contratempos são rapidamente esquecidos na profusão de singles interessantes e técnicos que se vão sucedendo. Um deles, após atravessarmos o IC8, foi mesmo bastante difícil de fazer, pois era revestido a pedra e vegetação molhadas que faziam as rodas patinar constantemente, tornando eminente um mergulho de cabeça em direcção aos valados e às silvas que o ladeavam.

Primeiros singles

A exigirem alguma técnica

O percurso ia agradando

Esta sucessão de singles conduziu-nos até à aldeia do Vale, da qual saímos por um estradão a subir que terminava numa pedreira. No single que se seguiu, numa zona mais desabrigada, ainda caíram uns pingos de chuva que nos levaram a temer o pior. Mas felizmente a coisa aguentou-se e o tempo manteve-se sempre bastante agradável para pedalar.

Subindo após a aldeia do Vale

RS na sua GT Marathon

Final da subida

Seguiram-se alguns quilómetros de caminhos ao longo da Serra do Sicó, com passagem pelas povoações do Zambujal e dos Poios. Estes caminhos ora eram mais largos, ora eram mais estreitos, ora subiam, ora desciam, ora tinham mais pedra, ora tinham menos pedra, mas a paisagem era sempre espectacular. Numa dessas descidas, até parecia que estávamos em S. Pedro do Sul, tal era a quantidade de pedra que nos abanava o esqueleto. Seguíamos juntamente com um pequeno grupo de malta, a maioria sem GPS e que ia aproveitando a nossa companhia para se orientar.

Single a seguir à pedreira do Vale

A saída dos Poios fez-se por uma subida em alcatrão, paralela a uma escarpa onde se avistava, lá no alto, a capela da Sra. da Estrela. Mas rapidamente o alcatrão deu lugar a novo single, desta vez bem fechado por uma vegetação exuberante, ao qual se seguiu um troço com uma paisagem a fazer lembrar a Serra dos Candeeiros, com os seus caminhos ladeados por muros de pedra, que se desenrolam ao longo de velhos olivais.

Abastecimento em andamento

Ao fundo, a escarpa com a capela da Sra. da Estrela

Saimos do alcatrão directamente para um single bem fechado

Dois dos nuestros hermanos presentes

Muros de pedra e olivais

Passamos perto das povoações de Casais de S. Jorge e de Degracias, após as quais se iniciou a maior ascensão do dia, ao longo de um estradão que nos levaria, através de um parque eólico, um pouco acima dos 500 m de altitude. 

Parque eólico

Em plena serra, a Capela de S. António de Degracias

Um rebanho faz uma pausa enquanto passamos

A trabalheira que deve ter dado fazer todos estes muros de pedra

RS chegando ao topo

Despachada a subida, que até se fazia bem, seguiu-se a inevitável descida. Esta iria conduzir-nos até ao vale dos covões, um dos pontos mais interessantes deste passeio, onde pudemos observar a magnífica paisagem cársica, da qual faziam parte formações de lapiás e as célebres Buracas do Casmilo.

Início da descida após as eólicas

A armada espanhola a descer

  Rumo ao vale dos covões

 Já no vale

Buracas do Casmilo...

...formações cársicas espectaculares

Aproveitamos o momento contemplativo para aviar umas barras. Estas iriam ajudar-nos na subida que era necessário fazer para sair do vale.

Com paisagens destas até apetece subir

As buracas iam ficando para trás

Através da Serra de Jeananes seguimos até à povoação seguinte, a Chanca, onde após o miradouro do alto da serra, somos brindados com um single espectacular que descia até à povoação da Ordem.

Início de um dos melhores singles do dia

Novo troço de alcatrão levou-nos até ao Rabaçal, onde já se via algum pessoal a encostar nos cafés para abastecer. Não foi o nosso caso, que resolvemos continuar a pedalar rumo ao próximo ponto de interesse, o castelo no alto do monte Germanelo.

Subindo em direcção ao castelo de Germanelo

Deixamos o Rabaçal e o Sicó para trás

"Área de descanso", indicava a tabuleta

Já passava do meio-dia quando terminámos de subir e passámos perto do castelo. Pedalávamos sozinhos através de uma paisagem lindíssima, com os campos todos verdes e floridos. Á nossa frente erguia-se um monte bastante característico que dá pelo nome de Jurumelo. Passamos pelo lugarejo de Tamazinhos, onde alguns dos caminhos nos fazem por momentos lembrar as calçadas de Monsanto.

Primavera

RS a mostrar trabalho, transportando a bike do fotógrafo

Monte Jurumelo

Tamazinhos

Um pouco mais à frente começamos a avistar a imponente Serra da Lousã, onde em Outubro passado fizemos o Geo-Raid. Os caminhos começam a ser mais planos e a pedir andamentos mais vivos. No entanto, o RS começa a acusar a falta de quilómetros nas pernas e a solicitar uma paragem nas boxes para reabastecimento.

A toponímia portuguesa no seu melhor

Serra da Lousã em pano de fundo

Curiosamente, sempre que alguém falava em bifanas, eu enganava-me no caminho. Diga-se que a navegação do nosso grupo ficou a meu cargo, já que mais ninguém tinha levado GPS. Isto tem as suas desvantagens, pois cada engano na navegação (que como é habitual foram vários) dá logo direito a ouvir as bocas do costume.

Decidimos então procurar um café na povoação seguinte que era Figueiras Podres de S. João. O problema é que nas Figueiras só mesmo figos e ainda por cima podres. Café não havia. Lá tivemos de aguentar até Ansião.

Já em Ansião, abancamos finalmente na esplanada de um dos muitos cafés aí existente. Logo por azar, este ficava em frente a uma Casa do Benfica. Perdi logo o apetite. Mas como tinha de comer alguma coisita, lá me obriguei a comer uma bifana, meia sandes de presunto e uma cola. Atestámos também os “Camelos” de água. O RS aproveitou ainda para tomar um shot de Magnesona.

Lá se foi a autonomia...

"Rainha Santa dando esmola a um ancião"

Registe-se que não sou grande adepto de paragens em cafés durante este tipo de eventos. Primeiro, porque acho mais piada fazê-los em autonomia total (excepto água). Segundo, porque após estas longas paragens, o corpo não acha muita piada a ter de voltar a pedalar.

Estávamos com 70 km pedalados, faltando apenas 40. Este apenas é relativo pois o tipo de terreno que apanhámos a partir daqui era de progressão um pouco lenta. Foi um sobe e desce constante, tipo serrote, com uma overdose de singles do melhor, por entre pinhais, carvalhais, eucaliptais e campos de cultivo.

Mal arrancamos, ainda as pernas estavam a tentar aquecer, levamos logo com uns singles fechados, com uma mistura de pedra e de mato, onde deixámos uns bocados de pele agarrados às silvas.

Pouco depois, telefona o JC todo contente, que já tinha terminado a Maratona de Portalegre em 71º lugar (mais tarde veio-se a saber que afinal era 51º). Lá lhe dei os parabéns, enquanto pensava para com os meus botões, tás tramado, ainda tens dois Geo-Raids para fazer com um parceiro que deve ter caído dentro do caldeirão da poção mágica quando era pequeno.

Lá seguíamos animadamente, quando passam por nós alguns BTTralhos, um dos quais era o MDiogo, o grande dinamizador deste passeio e com o qual ainda trocámos uns dedos de conversa.

À conversa com o MDiogo

Entre um single e outro, fizemos um bocado de estradão que seguia ao logo do Rio Nabão, em cujas águas cristalinas ondulavam longos e verdíssimos limos.

Rio Nabão

Como já referi anteriormente, o terreno era muito variado e arborizado, tornando a progressão bastante agradável. Passámos nas traseiras de várias povoações e os singles iam-se sucedendo, serpenteando por entre campos cultivados que muitas vezes surgiam isolados no meio de pinhais.

Pinhais, olivais, campos de cultivo, singles...

Outro ponto de interesse foi a passagem junto de uns velhos moinhos, no alto de um monte.

A cerca de dez quilómetros do fim, o track assinalava “a subida”. E de facto a rampa era tramada. Uma verdadeira “cai de costas”. Ia literalmente caindo de costas, quando a roda da minha bike levantou e me desequilibrei. Só o RV, com o seu treino específico nas rampas da Arrábida, ajudado pelos pneus 2.25, é que conseguiu subir aquilo.

Chegámos a Vermoil, subindo uma rampinha final em alcatrão, já passava das 18h30. O meu GPS registou 112 km, com 8h43’ a pedalar e 1h22’ parados (ai as bifanas). 2699 metros de desnível acumulado de subidas. Ponto mais alto 535 metros.

De seguida fomos tomar banho (de água quente) aos balneários do campo de Futebol. A organização ainda nos ofereceu pizza, sumos e fruta.

Final da jornada de trabalho. Que belas meias.

Fazendo o balanço deste passeio, achei o formato bastante interessante. A organização foi informal mas muito boa. Malta simpática, disponível e que veio pedalar com os participantes. Forneceram atempadamente a informação necessária e o track GPS. O percurso era excelente: duro, técnico q.b., variado, bonito, com inúmeros singles e com muitos pontos de interesse. Banho quente e reforço alimentar no final. E tudo isto de borla. O que é que se pode querer mais? Um grande obrigado aos BTTralhos por nos terem proporcionado um excelente dia de BTT puro e duro.

A data escolhida também foi boa. Apanhámos a Primavera em plena pujança, com os campos todos verdes e floridos. Tivemos ainda muita sorte com a meteorologia, que nos ofereceu um dia sem chuva e com uma temperatura óptima para pedalar.

De salientar o bom ambiente que se criou entre os participantes. Não se notou aquele stress típico dos eventos competitivos, estando o pessoal mais preocupado em divertir-se a pedalar e em desfrutar dos trilhos, da paisagem e da companhia dos amigos. O número de participantes relativamente reduzido (130) também ajudou a que tudo corresse sem confusões.

Uma referência final muito positiva para a estreia oficial do RS como membro pedrAmarela. Para quem raramente anda de BTT, dispor-se a fazer uma volta com esta distância e acumulado de subidas, foi de homem. Veio sensatamente a gerir o esforço durante grande parte do percurso, recusando-se a responder a “provocações”, mas na parte final ainda conseguia aparentar alguma frescura, chegando mesmo a acompanhar alguns andamentos mais vivos. Um exemplo para alguns membros mais antigos do grupo.

Venham mais desafios destes.

 

PM

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publicado por pedramarela às 18:29
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3 comentários:
De RPires a 14 de Maio de 2010 às 17:49
Muito bom relato !

Uma volta interessante, sem dúvida...


Saudações virtuais,
RPires


De Miguel Romão a 15 de Maio de 2010 às 14:52
Parabéns Pedro pela crónica, mais uma vez fabulosa a discrição de mais um dia grande de BTT.
Só queria estar lá para ouvir-te a resmungar do engarrafamento.
Saudades de conseguir aguentar um dia destes de BTT e com companhia da boa como a vossa.


De Lena a 18 de Maio de 2010 às 16:07
Olá! Deixo um convite: Junte-se a nós no dia 10 de Junho, no Convento dos Frades, em Trancoso, num duplo evento: «Encontro de Bloggers e lançamento do livro "Aldeias Históricas de Portugal - Guia Turístico". Para estar presente, envie um mail para aminhaldeia@sapo.pt a solicitar o formulário de inscrição e o programa das festividades. Faça-o com antecedência, pois as inscrições são até dia 2 de Junho.

Abraço
Lena


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