Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

Uma GR22 solitária… de 17 a 23 de Maio.

Após alguns incentivos para fazer o relato desta minha aventura, aqui estou para contar a história desta grande rota que passa por algumas das aldeias beirãs e que é caracterizada pela sua beleza e dureza. Não vou repetir a lengalenga de sempre, que podemos encontrar em alguns relatos por essa net fora… blá, blá, que é uma experiencia única, blá, blá, que jamais vou esquecer aqueles trilhos, blá, blá, blá, blá, blá!! A GR22 é uma grande rota circular que passa por algumas das mais características aldeias portuguesas localizadas nas Beiras! Tudo o resto são adjectivos que ficam aquém do que se vivencia.

 

Depois de muita pesquisa na net, depois de muitas horas no Google Earth, tinha todo o esquema da viagem delineado, os sítios onde pernoitar, as localidades onde hipoteticamente se podia almoçar e rezar para que as fontes de água fossem abundantes.

 

Desde algum tempo que tinha em mente fazer este percurso sozinho. Claro que ir sozinho requer certos cuidados acrescidos que foram sempre contabilizados com muita precaução.

 

Posto isto, vamos ao que interessa. Decidi fazer a viagem de carro até Castelo Novo, ponto de partida, no mesmo dia em que iniciei a primeira etapa. Depois de dormir cinco horas, a alvorada foi às 6h da manhã e a partida de casa às 6h30. A chegada a Castelo Novo foi às 9h30. Na mochila levava uma muda de poupa, um par de chinelos, o estojo de higiene pessoal, ferramentas para qualquer eventualidade e água. Tudo o que é necessário sem ser demasiado pesada. Decidi, nesta primeira etapa, não ficar na aldeia de Monsanto mas sim em Penamacor. Foram 92km que no final foram bem difíceis, as cinco horas de sono e a viagem de carro não ajudaram. Tomei esta decisão porque foi-me mais fácil encontrar onde dormir em Penamacor.

 

Saída de Castelo Novo.

 

A partida de Castelo Novo foi às 10h, e a primeira peripécia assinalável desta viagem foi o quase atropelamento de um velhote que ia atravessar a rua de uma pequena localidade. Ia eu a tentar ver o track no GPS quando sinto um vulto do lado direito, tento desviar-me mas o velhote ainda levou com o camelbak nos queixos. Resultado, o velhote a mandar vir e eu a pedir desculpa pelo atropelamento. 

 

Um dos muitos riachos que se atravessam no nosso caminho.

 

Esta primeira etapa fez-me lembrar um pouco o Alentejo, um sobe e desce constante que não é muito acentuado mas que vai fazendo mossa com os km. O almoço foi em Idanha-a-Velha, duas sandes manhosas, batatas fritas e o grande erro, duas minis pretas. Almoço engolido, e assim que começo a pedalar em direcção a Monsanto sinto uma soneira que mais parecia uma bebedeira. Bom… lá fui, mas antes de chegar a Monsanto aproveitei a sombra de um chaparro para dormir uma pequena sesta. Só acordei com a mordida de um bicho.

 

 

Ao chegar a Monsanto a calçada romana é um clássico que fiz maioritariamente a pé. Eram cerca das 17h e ainda tinha que ir para Penamacor, mais 20km. Uma pequena pausa para beber uma bebida fresca e seguir novamente viagem. Cheguei a Penamacor às 19h, muito cansado mas com o conforto de saber que a segunda etapa iria ser mais curta.

 

Na segunda etapa, Penamacor – Sabugal com passagem por Sortelha, tive o primeiro susto desta aventura. Comecei a pedalar às 10h, e na passagem da barragem de Meimoa tive o único percalço mecânico de toda a viagem, um pequeno furo que foi prontamente solucionado.

 

 

Com a serra da Malcata como pano de fundo, cheguei a Meimão onde almocei uma sopa e uma sandes de presunto.

 

 

Retomada a marcha, a grande subida para chegar a Sortelha começou devagar sobre um sol escaldante. A meio da subida começo a ver um rebanho de cabras e um grande Serra da Estrela ao longe. Parei e esperei que o pastor se aproximasse. Quando voltei a pedalar, o cão deu por mim, e mais outros três, dois deles Serra da Estrela. Saí da bicicleta, os cães rodearam-me, e quase que ficava ali entregue às feras. O pastor veio a correr, segurou as duas feras Serra da Estrela, e eu segui caminho. Enfim, um grande susto que não iria ser o único. Cheguei a Sortelha às 15h30 e aproveitei para visitar a aldeia. Retomei caminho e fui dormir ao Sabugal. No final contabilizei 68km.

 

Paisagem antes de chegar a Sortelha.

 

Sortelha.

 

Dentro das muralhas.

 

No terceiro dia, Sabugal – Almeida, tinha que atravessar o rio Côa que quase de certeza estava intransponível. Esta etapa é caracterizada por ser a mais longa e a mais rolante. Antes de chegar a Alfaiates, aproveitei uma sombra perto de um pequeno riacho para passar novamente pelas brasas.

 

 

O almoço foi na povoação de Rebolosa. Comi uma chanfana, um prato muito típico da zona. Ao chegar à zona que atravessa o rio Côa, ainda pensei que poderia ser possível, com alguma sorte e perícia, atravessá-lo. Fiz a grande descida até ao ponto de passagem que tem parte de uma ponte romana e claro, o rio estava demasiado agitado para arriscar.

 

Antes de chegar ao rio Côa.

 

A ponte que atravessa parte do rio Côa.

 

Voltei para trás, apanhei a estrada de alcatrão em direcção a Castelo Bom, e voltei a descer para passar o rio pela ponte que fica próxima. Outra vez a subir e volto a meter-me num dos caminhos que, de certeza, iam ter ao outro lado do rio onde passa o track. Assim fiz, e com algumas correcções cheguei à outra margem. Com tudo isto, foi mais uma hora e alguns km em cima da bicicleta.

 

Na outra margem do rio.

 

Já na outra margem aproximava-se a subida para Castelo Mendo, mais uma das aldeias históricas. Mais uma pausa para beber qualquer coisa fresca e seguir para a resto que faltava. Para terminar esta etapa, a cereja em cima do bolo foi a longa subida até Almeida. Dura e interminável. No fim, foram 103km.

 

Na quarta etapa, entre Almeida e Marialva, fui mais uma vez atacado por cães. Saí de Almeida às 9h e segui em direcção a Castelo Rodrigo. Até Castelo Rodrigo a etapa é relativamente rolante, apenas tive que descalçar os sapatos uma vez para atravessar mais um riacho.

 

 

Aqui tive que descalçar o sapatinho.

 

Aproveitei a proximidade de Figueira de Castelo Rodrigo para almoçar no restaurante “A Cerca”. Retomada a marcha, havia que começar a subir para a aldeia de Castelo Rodrigo. Com a barriga cheia e o calor da hora do almoço, a subida foi feita com muita calma e muitas paragens para contemplar a paisagem.

 

 

Depois de Castelo Rodrigo seguiu-se a longa descida até a pequena ponte que atravessa o rio Côa, para de seguida subir, e subir. Num dos riachos onde passa a rota, estava eu já na outra margem quando sou surpreendido por mais uns quantos cães a tentar ferrar-me o dente, a minha sorte é que não eram muito grandes. Um pouco mais à frente encontro o pastor sentado a comer uma bucha. Conversa puxa conversa e começo a reparar que o homem estava a comer um pedaço de pão com meia sardinha. Até aqui tudo normal. Detenho-me na sardinha e reparo que estava crua. O pastor ia comendo partes da sardinha para de seguida as vomitar. Só visto! Parecia que tinha voltado à época medieval. Segui caminho um pouco agoniado.

 

Antes do ataque canino.

 

A chegada a Marialva foi pouco tempo depois mas tinha, ainda, de fazer mais 9km para chegar a Mêda, onde ia pernoitar. Mais um dia com 90km nas pernas.

 

Dia cinco, Marialva – Linhares da Beira. Saída de Mêda sempre a descer para voltar a passar por Marialva e retomar o track que me levaria até Linhares.

 

Marialva.

 

Neste dia tive mais um agradável encontro com dois Serra da Estrela. Um deles quase me comeu o pé direito. A minha sorte foi o cão não ter conseguido acompanhar o movimento que o pé faz ao pedalar. Após Marialva, o track passa por uma zona de sobe e desce constante passando perto de Trancoso. A meio da manhã chego ao cimo de um vale que tinha como pano de fundo a Serra da Estrela. Foi um dos momentos mais entusiasmantes desta viagem a longa descida que serpenteia a linha de água, que passa a riacho e vai desaguar no Mondego.

 

Vista a partir do Vale.

 

Este grande vale termina em Muxagata, onde almocei num restaurante que fica à saída da aldeia, depois de uma subida interminável de alcatrão. Pouco depois havia que atravessar o rio Mondego. Mais uma vez tive que dar uma volta considerável para fazer a travessia, e retomar o track na outra margem.

 

Mondego.

 

Seguiram-se as longas e sucessivas subidas até Linhares da Beira. Já na parte final ainda tinha pela frente a calçada romana, longa e muito técnica. No final contabilizei 97km.

 

 

A calçada romana que vai dar a Linhares,

 

Chegado a Linhares começou a novela do jantar. Depois do banho tomado, roupa lavada e posta a secar, fui tentar comer algo ao café da senhora “não sei das quantas”. Dei com o nariz na porta e tive que esperar que alguém aparecesse. Entretanto chegou a senhora e nada para comer, nem sopa, nem sandes, nada. Com alguma insistência lá consegui duas carcaças congeladas e algumas fatias de queijo e presunto para levar. Acabei por levar também alguns croissants e uma garrafa de gasosa para jantar. Tive que combinar com a senhora a hora do pequeno-almoço do dia seguinte para abrir o café à hora combinada. Conclusão; Linhares da Beira é muito bonito mas é o fim do mundo!

 

Este era calminho...

 

Sexto dia, Linhares da Beira – Piódão, o dia das subidas intermináveis. Não contabilizei o acumulado desta etapa mas pelo que pesquisei há quem diga que tem cerca de 3500. Até que se percebe, há que atravessar a Serra da Estrela… Bom, depois do pequeno-almoço tomado, três sandes, dois sumos e um pacote de batatas fritas no camelbak, arranquei para a mais difícil etapa desta GR.

 

Linhares cada vez mais distante.

 

 

Só para terem uma ideia de como é a primeira parte desta etapa, estive sempre a subir desta a partida, às 9h, até às 12h30 quando cheguei à Santinha, um posto de vigia abandonado e um dos pontos mais elevados. Até lá chegar deu para pedalar um pouco à sombra pois o caminho passa por alguns pequenos bosques que proporcionam boas sombras e uma temperatura mais amena.

 

 

 

Chegado à Santinha a paisagem torna-se mais árida. Um sobe e desce pouco acentuado.

 

 

 

Poucos km depois encontro um café na barragem do Vale do Rossim. Deu para almoçar tranquilo e tomar café. Retomada a marcha, há que passar pela barragem do Lagoacho para apanhar, um pouco mais à frente, a estrada alcatroada que passa pela Lagoa Comprida. A seguir à Lagoa Comprida chegou um dos momentos mais velozes desta Grande Rota, a longa descida até Vide. O cruzamento indicava o Piódão e não havia que enganar, era sempre a descer.

 

 

 

A torre e o pastor.

 

Deve ter sido cerca de hora e meia, até fazia doer os dedos das mãos. Chegado a Vide, retomo as forças com mais uma sandes e uns minutos de descanso perto de uma fonte. O pior ainda estava por vir. A seguir a Vide há que subir toda a Serra do Açor. A subida começa relativamente bem até que chegamos a um ponto em que enfrentamos uma “parede” cheia de cascalho com uma inclinação e peras. Foi mais de uma hora a subir à mão. Aproveitei para contemplar a paisagem e gerir as forças para empurrar a bicicleta.

 

Serra do Açor.

 

O Piódão.

 

Até ao Piódão segue-se por um estradão que serpenteia a serra do Açor, sempre a descer. Para quem gosta de montanhas, esta etapa é a indicada para se deixar encantar com as vistas e desfrutar ao máximo a paisagem. Chegado ao Piódão com 82km, a sensação de estar num “buraco” no meio de serras, antevia para o último dia mais um dia de bastante sofrimento.

 

Último dia, Piódão – Castelo Novo, a sétima e derradeira etapa. Para mim, esta foi a etapa mais dura, não pelo acumular dos km durante os seis dias anteriores mas devido às características deste último troço. Para começar, nada como sair do Piódão com a agradável subida em alcatrão até encontrar o estradão à esquerda que nos leva até ao cimo da serra, para depois começar a descer, a descer, a descer e passar pela aldeia da Fornea.

 

A despedida do Piódão.

 

 

Voltar a subir, descer até Covanca, voltar a subir, voltar a descer, voltar a subir e descer, voltar a subir e descer até Meãs. Quase a chegar a Dornelas do Zêzere, ponto de paragem para o almoço, a descida pelo estradão é rapidíssima. Almoço no restaurante “Os amigos” para de seguida passar grande parte da tarde na subida interminável que vai dar ao parque eólico da Gardunha.

 

A longa subida até às eólicas.

 

O parque eólico da Gardunha.

 

A passagem pelas eólicas, para além de monótona, é um rompe-pernas constante com um piso muito irregular cheio de cascalho solto. Segue-se a vertiginosa descida até Partida.

 

 

A partir daqui o percurso é mais ou menos rolante, apenas existe uma subida digna de referência. Cheguei a Castelo Novo às 18h30 com mais 95km, e ainda tive que fazer o regresso a casa de carro.

 

A chegada a Castelo Novo

 

Talvez a parte que mais me custou desta aventura foi o retomar à vida normal da cidade. Quando se acorda e sabemos que temos pela frente um dia cheio de pedaladas, o prazer de sofrer em cima da bicicleta é proporcional à paisagem que vamos deslindando com o nosso olhar. A descoberta de novos horizontes é tão reconfortante que nos faz reflectir sobre outros horizontes que não apenas os visuais. Como em muitas coisas da vida, isto de andar de bicicleta tem muito que se lhe diga. Pode-se andar de rígida, de suspensão total, com mudanças, sem mudanças, acompanhado e, imagine-se, sozinho. Para os pobres de espírito que não vislubram estes outros horizontes, resta-lhes apenas os comentários idiotas como prémio de consolação.

 

Até uma próxima travessia…

 

RA


publicado por pedramarela às 00:15
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